Ao senhor Richard

16:03

29.09.14, Londres



Eu via pela janela da limusine toda extensão do planalto londrino e suas altas torres, cada uma com sua historia e significado. Eu via os olhos de Londres, suas pontes, ruas frias e estreitas. Lembrava-me de todas as promessas que me foram feitas, de todas as vezes que dizia que ia voltar, enquanto eu, criança, te esperava sentada em um banquinho. Mas você não voltava. Já se passou um ano e pouco desde que de fato você se foi, partiu para um lugar melhor. A culpa não foi sua e jamais será, mas também não é minha por sentir sua falta. Ou talvez seja; não sei. Pai, já aconteceu tanta coisa, sabe? O senhor ganhou mais alguns netos, entre eles um casal de gêmeos! São todos lindos e um deles, o Lucas, tem meus olhos. Tenho certeza de que gostaria de conhecê-los e... Teria muito orgulho deles e do que me tornei. Há algum tempo tenho me visto sozinha, devido a fatos que prefiro não comentar. Meu porto seguro não está tão seguro assim, a não ser por meus filhos, seus netos, que me dão força a cada dia que se passa. Já faz tanto tempo que me sinto assim, que virou parte da minha rotina. A mamãe tenta a todo custo me deixar melhor, mas... Me sinto fraca, cansada demais pra pensar, esgotada demais para fazer alguma coisa. É como se eu estivesse sentada em algum lugar e só deixasse o vento me levar, pra qualquer lugar longe de tudo, queria eu ter a oportunidade de mudar de nome, de vida, de endereço definitivamente. Apagar o que vivi, o que sou, e começar tudo de novo sem lembrança alguma. Não falo exatamente da minha vida de casada, amo meu marido e meus filhos incondicionalmente e é por eles que vivo. Porém, sua falta me causa extrema dor, dor essa que jamais saberei explicar. Passamos tão pouco tempo juntos, os poucos que você tinha devido a tanto trabalho, mas foi o tempo suficiente pra me fazer te amar de tal forma. Por vezes me pergunto por que a vida te tirou de mim tão cedo, porque você teve que ir tão rápido e de forma tão trágica. Por que não ficou um pouco mais? Não viu seus netos crescerem, não esteve com eles nos primeiros passos e palavras. Mas a culpa não foi sua, você teve que ir não foi? Em algum lugar nesse mundo, acredito que está velando por mim e meus filhos, por todos aqueles que te amam. Em algum lugar desse mundo, sei que você é anjo da guarda de alguém, que com toda certeza deve tá precisando mais do que eu. Enquanto eu, agora adulta, ainda te espero sentada num banquinho. Ansiosa e pronta pra te receber como se nunca tivesse ido, de braços abertos, olhos atentos e brilhantes de felicidade por te ver mais uma vez. Só queria uma vez... Mais uma. Te agradeço por tudo, pelo que me ensinou, o que me fez ser o que sou hoje, por tudo aquilo que tenho, o que construí. Agradeço por todo amor a mim dedicado, por tudo que fez e deixou de fazer, por mim. Agradeço por ter me amado até seu ultimo suspiro. 
Talvez eu crie um terceiro ou quarto mundo em minha mente, pra te colocar nele mais uma vez, dessa vez comigo, dessa vez sem faltas, sem erros, sem brigas e afastamentos. Talvez eu te recrie em minha mente, apenas pra me sentir um pouco mais segura e protegida, talvez eu te recrie em minha mente, apenas pra te ter por perto mais uma vez, só uma vez. Talvez eu te recrie em minha mente, você com os mesmos defeitos e qualidades, exatamente desde o ponto em que se foi. Talvez eu te recrie em minha mente, à espera da sua volta, cumprindo a promessa de suas ultimas palavras. “Eu volto” 
Talvez eu te recrie em minha mente, pra viver tudo aquilo de novo, pra te esperar sentada no mesmo banquinho; criança ou adulta, posso chegar aos meus 100 anos, que irei precisar de você como se tivesse 5.

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