Um relato

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No exato momento em que ele abriu a boca e disse me amar eu dei um passo para trás, tentando recuperar o meu equilíbrio, era como se uma bomba tivesse acabado de atingir o muro que eu construíra para não deixar os sentimentos transparecerem. Enquanto tentava me recuperar do bombardeio, ainda procurando se o muro tinha ficado intacto, percebi que algo tinha conseguido sair. O que acabara de acontecer? Esperava que nenhuma reação que me entregasse muito. 

- Você me ouviu? - sim, eu tinha ouvido, mas fui pelo caminho que eu sempre seguia nessas ocasiões. Disse que depois conversávamos melhor, que precisava fazer trabalho da faculdade, que o meu cachorro estava sozinho em casa, que hoje pegava mais cedo no trabalho; isso a cada novo "mas" dele, tentando me convencer a ficar e conversar. 

Essa sou eu, sempre buscando pelo caminho mais fácil, a meu ver. Claro que, para você, falar sobre o que sente pode ser mais fácil, se entregar, deixar tudo fluir, se doar até não ter mais você, eu já fui assim. Eu continuo amando, me importando, mas demonstrando? Essa é a minha atual dificuldade. Não me custa nada dizer o que sinto, quando me sinto confortável para dizer, me sentir confortável é que custa toda a minha vida. (Um pouco dramático, eu sei, se acostume, eu sou apaixonada por drama, quando eu os faço.) Eu fugi, é verdade, mas como eu lidaria com essa situação? Minha última tentativa de relacionamento foi por água abaixo quando eu disse que estava apaixonada. Eu repassei aquela cena na minha cabeça por diversas vezes, contando a todas as minhas amigas, repetindo e repetindo, pra ter a certeza que eu não tinha acabado de contar sobre algum crime - ou cometido algum - porque a reação foi exatamente assim: "Olha, eu já vinha desconfiando disso, até queria mesmo conversar com você há um tempo. Não estou preparado para uma relação assim nessa fase da minha vida, eu não sei se você consegue entender, mas, por favor, não me odeie. O problema não é você, sou eu." E pronto, após uma série de desculpas típicas de fim de relacionamento, ele saiu como quem foge de um barulho na madrugada. Mas o pior foi a cara de quem tinha acabado de ver um fantasma. Como alguém pode conseguir não ficar abalado depois disso? Foi doloroso em extremas proporções, então, a partir daí fui construindo um muro feito de puro egoísmo e ressentimento (como eu e minhas amigas costumamos chamar carinhosamente).

Eu precisava levar em consideração muitas coisas antes de decidir, ao menos, abaixar um pouco a guarda. As pessoas sempre conseguem estragar qualquer que seja o sentimento. Não sei se estava preparada para me deixar sentir. Tenho plena ciência de que o amor não é algo ruim, não é um fardo, não dói, quem sente é o que o torna assim. Não é amor o não correspondido que machuca, é a forma como você projeta a pessoa amada e passa a esperar algo dela, você quer que a pessoa seja perfeita; esquece que, assim como o resto do mundo, ela não é perfeita, ela não pode viver de acordo com o que você quer, agindo como você quer. Todo e qualquer sentimento tem que ser levado com a leveza de uma pena e a intensidade de uma vida inteira. É controverso, eu sei, por isso tenho tanto que considerar. O único modo é ser sincero tanto consigo, quanto com a pessoa, assumir os erros, os defeitos, os acertos. Por fim, pesar o que é mais importante, como a pessoa te faz sentir ou a magoa das relações passadas. 

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