11 graus.

13:30

Ele virou pra mim e "Tó, procê." e eu não sei qual parte me encantou mais, se foi aquele sotaque maravilhoso do interior que às vezes saia sem ele perceber ou a fofura do dono da voz.

Uma flor? - perguntei sorrindo, lembrando da nossa conversa do dia anterior, onde ele, todo marrento,
texto - 11 grausse gabava de ser a dureza em pessoa, o senhor desapego. - Não é pra ficar se achando muito. Só passei em frente a uma casa com um jardim bonito e essa flor tava pro lado de fora, lembrei de você e peguei. - Falou forçando um ar descontraído. Tentei segurar o riso, mas ainda saiu pelo canto da boca. - Ela é cheirosa, bonita... Tá explicado porquê lembrou de mim. - A carinha dele de ~estou tentando disfarçar que fiquei sem jeito com o cinismo~ foi maravilhosa e me fez gargalhar. A noite foi passando e hora ou outra eu voltava ao assunto da flor. - Iiih, será que você tá apaixonado? Será!?  - e em seguida caia no riso, novamente. Ele brincava, tentava se sair e eu esperava ele revidar, porque era assim que a gente se entendia, brincando até descobrir a verdade. E, ora, eu queria descobrir qual era a dele. Guardei mais algumas piadinhas para o fim da noite, quando ele me deixasse no hotel. Aguentei todas as vezes que rebateu com "cuidado com a ilusão" atingindo o meu ponto fraco. Mas foi só chegar na frente do hotel que veio a oportunidade perfeita. - Quando cê vai embora? Já tá na hora... - Os olhos dele percorreram toda a recepção do hotel e encontraram os meus. - Tô só esperando você parar de me olhar com essa carinha de bobo apaixonado. Não quero ir pra casa e depois ter que voltar aqui porquê você não parava de chorar na minha ausência. - Por mais sarcasmo que eu tentasse colocar, nossos olhos não se desviavam e mesmo meu cérebro ordenando que eu começasse a gargalhar, simplesmente não saia. - O que tem de errado em a gente assumir que tá apaixonado um pelo outro? - Opa! Pergunta séria, socorro, alguém me tira daqui. Eu estava querendo isso? Estava. Mas estava esperando que ele falasse assim? Não, nunca! Como reagir? Dizer que todo aquele sorvete atacou minha intolerância à lactose e fugir dali? - Terra para Yasmim. - Sorri. - Não sei como proceder após tal pergunta. - Brinco. - Não há nada de errado. Só vai ser mais complicado. Eu vou embora daqui 3 dias, não sei quando volto. E tem várias outras complicações que você sabe, além do mais você é o Sr. Desapego, quem sou eu pr- ele me interrompe num ato de muita bravura, confesso. Não gosto muito de ser interrompida. - Complicações todo mundo tem e relaxa, não tem ninguém sendo pedido em casamento aqui, não hoje. Se as coisas fossem fáceis pra nós, não teriam graça alguma. - Uma voz terna e serena, em meio àquela borbulhação de sentimentos, me trouxe uma enorme paz. - Eu te ligo quando chegar em casa. - Tive direito a um beijo na testa e uma mensagem de "cheguei, dorme bem" mais fria do que os 11 graus que faziam lá. Li e reli a mensagem, repassando todos os momentos maravilhosos daquela noite e o fracasso da minha reação. Não o vi no dia seguinte e já passava das oito da noite quando resolvi tirar o meu orgulho de campo e mandar uma mensagem. "Você pode vir aqui?" Recebi um Ok como resposta e 40 minutos depois outra mensagem "Cheguei...". Reuni toda a coragem que tinha e desci. Respirei fundo e soltei tudo o que havia ensaiado o dia todo. - Não é que eu não goste de você, muito pelo contrário, é justamente por sentir o que sinto e te conhecer o tanto que te conheço, que tenho receio de finalmente declarar, em palavras, tudo o que passa aqui dentro quando tô com você. É enlouquecedor. Eu nunca senti nada parecido. E justamente por isso não quero desperdiçar tempo e sentimento com inúmeras tentativas de fazer dar certo. Temos muita coisa, no momento, que nos impedem de ter uma relação que seja taxada como um relacionamento. Você consegue me entender, não consegue? E você sabe que estou certa. E, claro, você me conhece há anos, sabe de todos os meus relacionamentos e sabe que sempre fracasso nos mesmos pontos, sempre quero tudo pra ontem, abraçar mais do que posso e dessa vez, para que dê certo, eu quero dar um passo de cada vez. Mas eu também não te quero frio como antes de ontem, eu não preciso de mais gelo, aqui já faz frio o suficiente. E eu vou embora amanhã a tarde. Não tem lógica um relacionamento agora, certo? - Nossos olhos brilhavam por causa das lágrimas presas. - Tudo bem. Quando você puder voltar nós resolvemos isso. - Foi a única coisa que ele conseguiu falar sem desabar, acredito eu. Numa última tentativa de buscar forças, inspirei e expirei fundo. - Eu só não quero uma relação de 11 graus, até lá. 

Você também pode gostar

0 comentários