O radinho de pilha

20:48



Hoje eu troquei a pilha do rádio, começou a rodar aquele mesmo CD que tava rodando naquela madrugada. 
A música parou, você levantou, calçou aqueles tênis horríveis e disse:
"-Vem, estamos saindo de viagem 
-Mas pra onde? Cê tá pirando?
-Confia em mim, vai ser inesquecível"
Naquela época eu não era tão ranzinza. Sair no meio da noite sem bagagem nenhuma pra embarcar numa viagem que eu nem sabia o destino, me pareceu uma idéia fantástica.
E foi a melhor viagem da minha vida, eu teria ido de novo e de novo, quantas vezes fosse possível. Mas segundo as leis do universo, tudo que tem um começo também tem um fim. Depois de tanto caminhar por aí uma hora a gente acaba cansando né. E a gente cansou, tava estampado na cara igual aquela espinha enorme que nasce bem no meio da testa e dá pra ver de longe.
Entrei naquele trem de coração apertado, e dessa vez tínhamos malas pra carregar. A gente tava voltando pra casa e nem sabia mais onde ela era. Ao mesmo tempo que eu queria pular daquela janela e me jogar ladeira abaixo, eu esperei que aquele trem nunca chegasse.
O trem chegou, e aquele abraço em frente à estação tinha o cheiro da saudade misturada no teu perfume. Dessa vez o orgulho foi maior que a vontade de ficar te olhando dobrar a esquina. Quando me dei conta acabou que o radinho ficou comigo, você tinha dito que ele precisava de pilhas novas. Quem sabe um dia numa dessas estações, eu ainda te devolva o rádio e os CD's. Afinal esse mundo é tão grande, e você sempre gostou de caminhar.

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