Transbordar amor.

23:30


Fecho a última caixa com etiqueta de cozinha, olho ao redor, roupas empacotadas, livros ainda em colunas; é, falta pouco. Um descanso de meia hora e volto à mudança. Deito na cama, cabeça no fim, pé na cabeceira. Em algum momento esse já foi o meu lar? - me questiono, mesmo sabendo que a resposta tem pairado sob minha cabeça há meses. Mesmo antes de mudar para cá, não sentia que era meu lugar. Eu não pertencia a ali. Aquilo não me acolhia e confortava.

Era uma casa, não um lar. 

Uma casa é habitável, mas não é acolhedora. Em pouco tempo você sente que, mesmo sendo uma linda casa, não pertence a você e ela não te pertence. A casa vai te expulsar de alguma forma, vai arranjar um jeito, pode ser coisa da sua cabeça - na verdade, é coisa da sua cabeça -; você vai sentir que algo não está certo, algo não é íntimo o suficiente para sentir-se confortável, mas garante a estadia.

Mas um lar? Ah, o lar! Um lar te aconchega, te acolhe, te abriga, te conforta. Te faz pensar nele como um abrigo, depois de um dia horrível de trabalho, uma fortaleza onde nada pode te atingir. Te faz pensar nele em um dia maravilhoso, após aquela festa onde você dançou mais de 4 horas sem parar, como um descanso, um lugar confortável, onde você pode vestir sua roupa velha e surrada, short sem elástico, cabelo desgrenhado e cara amassada o dia todo.

O mesmo acontece com as pessoas. Você precisa sentir que pertence, não necessariamente a alguém. Não é como se um fosse propriedade de outro, muito pelo contrário. Não procure alguém que te complete, procure alguém que te acolha, que te conforte. Seja esse alguém também. Porque a vida já é complicada o suficiente para não transbordar amor.

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