Precisamos de mais consistência

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Gostaria de sugerir um pequeno exercício: supondo que hajam outras vidas e que você possa levar dessa vida atual uma única memória, já que todas as outras seriam deletadas, que memória seria essa?
Tentei responder à essa pergunta, e depois de dois dias percebi que não conseguia encontrar um momento que fosse consistente o bastante pra isso. Em vinte e poucos anos de vida, não há uma memória forte o suficiente a ponto de viajar comigo para uma outra vida. Não porque eu não tenha memórias bonitas com pessoas queridas, mas talvez porque a intensidade dessas memórias não se faça tão presente como eu acreditava que faziam.
Percebi que temos como hábito criticar as pessoas e suas relações rasas, mas na maioria das vezes a verdade é que não temos relações profundas com quase ninguém, falta consistência para estabelecermos ligações, a tal da conexão sabe. 
Relações são construídas entre tantas coisas de intimidade. Um dos meus critérios de avaliação para considerar alguém íntimo sempre foi abrir as portas da minha casa para essa pessoa, percebi que posso contar nos dedos quantos amigos eu já trouxe pra dentro da minha casa, e usaria menos dedos ainda para contar quantas vezes cada um deles esteve aqui. É como se a presença de "estranhos" na minha casa e na minha vida representasse uma ameaça da qual eu não sei como me defender.
É o tal grupo de pessoas consideradas "fechadas", fechadas demais pra alguém enxergar ou se aproximar. Pois bem, percebi que talvez nem nós mesmos consigamos nos enxergar. 
A inquietude de uma angústia que não passa, não se encaixar em nada, não pertencer a lugar nenhum. Nada nunca foi seu, você nunca pertenceu a coisa alguma. Relações tão superficiais com coisas e pessoas que tudo acaba num piscar de olhos. Acaba o interesse, acaba a vontade, acaba a força e até mesmo a responsabilidade para lidar com a situação. Sobra só a intragável sensação de que não é nada mais que a correnteza fazendo o seu trabalho.
O outro grupo, aquele das pessoas consideras "abertas", extremamente sociáveis nem sempre é o que parece. O desespero por ser aceito, a vontade quase que descontrolada de ter o maior número possível de companhias por perto as vezes esconde o medo de estar só.
Algum tempo atrás li um artigo que dizia que segundo dados da ONU, o uso de medicamentos como anti-depressivos, moderadores de humor, calmantes e afins já supera o uso de drogas como a cocaína, heroína e o ecstasy. Nunca dependemos tanto de remédios pra estarmos em "paz", somos a geração dos anti-depressivos, drogas sintéticas e todo tipo de "maquiagem sentimental". A impressão que fica é que as pessoas estão tentando curar doenças da alma, mas não estão olhando pra dentro dela.
Ter medo de estar sozinho não é nenhum pecado, o ser humano é naturalmente um ser social. E a maioria das pessoas não suporta a solidão, por isso tantos amigos de mentira nas redes sociais, tantas relações tão rasas porém numerosas. Quantidade ainda não parece melhor que qualidade.
E é irônico tanta gente sentir tanto medo de ficar sozinha, quando na maioria das vezes, sua relação mais consistente é com um frasco de comprimidos.

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